Sem apoio para mundial, atleta passa 3 dias com R$ 70 emprestado e vai ao pódio


Apenas R$ 70 no bolso e a vontade de ser campeã mundial. Maria Clara de Melo levou só isso na bagagem até o Campeonato Mundial de Capoeira, realizado em Fortaleza, organizado pela Superliga da categoria. A atleta de 20 anos não poupou esforços em busca do seu primeiro título internacional: saiu de Teresina, encarou 11 horas de viagem de ônibus e pediu dinheiro emprestado da irmã para poder passar os três dias no torneio. Pagou R$ 50 pelo alojamento e ficou com R$ 20 para se alimentar no período. Capoeirista há 10 anos e competindo há seis, Maria Clara acabou vice-campeã mundial na categoria graduado. O roteiro suado da medalha de prata foi muito comemorado.

– Treinei há mais de um ano para ir ao mundial, sonhei em ser a melhor do mundo na minha categoria, então não podia abandonar ou deixar essa oportunidade. Não foi loucura, mas força de vontade e persistência para realizar esse momento. A viagem de ônibus foi paga pela organização. Pedi R$ 100 emprestado a minha irmã, que tinha somente R$ 70. Assim, viajei. Ninguém (dos competidores) foi com patrocínio, os outros atletas também estavam com pouco dinheiro. Foi todo mundo ajudando uns aos outros – relatou Maria Clara, que foi até Fortaleza com outros atletas do Piauí e Maranhão.

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Maria Clara de Melo no pódio. Feliz pelo resultado, ela relembra viagem com R$ 70. Foto: Arquivo Pessoal/Maria Clara de Melo

Lá, o dinheiro que sobrou foi tudo contado. O café da manhã custava R$ 3. Era uma xícara de café com tapioca. Para comprar, o almoço os atletas reuniam moedas para chegar o valor do PF, R$ 10. À noite, a janta era sanduíche.

– Quem tinha mais dinheiro ajudava no almoço – relembra a atleta, acreditando que a alimentação acabou prejudicando o desempenho no campeonato. Foram quatro jogos (eliminatória, quartas de final, semi e final). Técnica, agilidade e rapidez foram os critérios analisados pelos juízes.

– Com certeza (prejudicou). Fomos de ônibus, saímos 20h de Teresina e chegamos 7h do outro dia. Tinha câimbras nas pernas. Tinha atleta que jogou descansado, eu não tive alimentação boa. Comi sanduíche todo o dia.

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Foto: Arquivo Pessoal/Maria Clara de Melo

Maria não falou aos pais que não tinha dinheiro para a viagem. Como eles ajudam a atleta a pagar o curso de técnico em enfermagem, Maria decidiu não comentar nada sobre a falta de dinheiro. Disse que estava tudo bem. E partiu. Na volta a Teresina, na casa do bairro Vila Maria, Zona Leste de Teresina, levou uma bronca daquelas do senhor Emanuel, eletricista aposentado, e da mãe Socorro, que trabalhou como cozinheira.

– Eles não sabiam. A capoeira é meu esporte, sonho. Se tivesse falado, eles não deixariam ir. Foi minha primeira viagem fora do estado, se tivesse sido campeão iria competir na Colômbia. Eles brigaram muito na volta, disse que jamais poderia ter feito isso. Mas se não fosse assim, como seria? Não teria conhecido atletas de Portugal, da França, Itália… Tinha competidores de 12 países. Sonho ser a melhor do mundo. Você sabe que as coisas para o esporte são sempre difíceis – conta a capoeirista, que já tem outros 10 títulos em torneios no estado.

Se o título mundial não veio, Maria Clara ganhou em casa um prêmio até maior: o apoio da irmã Alexandra, financiadora dos R$ 70 da aventura. E o “empréstimo” foi pago com o vice-campeonato.

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Coleção de taças de Maria Clara ganha medalha de vice-campeã. Foto: Arquivo Pessoal/Maria Clara de Melo

– Ela me pediu dois dias antes da viagem, disse a ela que ainda receberia dinheiro. Tudo conspirou a favor. Não foi um empréstimo, não precisa pagar. Foi um presente de uma pessoa que sempre a incentivou, defendi a prática da capoeira para o nosso pai, tem gente que infelizmente tem preconceito. Ela tentou patrocínio, mas teve gente que não acreditou. Então, viajou com a cara e a coragem. Ficamos orgulhosos, é o que ela ama – relatou Alexandra.

A próxima competição de Maria Clara é em outubro, um torneio local de capoeira em Porto Franco, no Maranhão. Do mundial, ficaram lições.

– Sinto com a bagagem cheia, uma atleta mais preparada para outros tipos de competições. Sinto a obrigação de treinar mais, pois foi só o começo de uma caminhada. Sou vice-campeã mundial e isso mostra que quando temos foco na vida se vai longe. O desafio de hoje é ser melhor do que ontem.

 

Fonte: Globoesporte/Piauí