Um ano após estupro coletivo no RJ, dois envolvidos seguem foragidos e delegada sofre ameaças


De 20 de maio de 2016 a 30 de abril de 2017 são 345 dias, que separam dois casos de estupros coletivos contra menores de idade no Rio de Janeiro. Enquanto a polícia busca um dos envolvidos no caso mais recente, ocorrido na Baixada Fluminense, o G1 apurou como está a situação de personagens do crime do ano passado.

A vítima do caso de 2016, uma jovem de 16 anos estuprada por cinco pessoas no morro da Barão, na Praça Seca, Zona Oeste da cidade, deixou o Programa de Proteção à Criança e Adolescente Ameaçado de Morte (PPCAAM), do governo federal. Já a delegada que investigou o caso revelou ter sofrido ao menos oito ameaças de morte desde então.

Apenas três dos sete indiciados pelos crimes de estupro e divulgação das imagens na internet do caso da Praça Seca foram presos: Raí de Souza, Raphael Duarte Bello e Moisés Camilo de Lucena. Dois traficantes permanecem foragidos, e dois responsáveis por divulgar as imagens tiveram o caso transferido para a Justiça Federal.

Jovem postou foto da vítima e ironizou o estupro cometido contra jovem de 16 anos na época do crime (Foto: Reprodução)

Jovem postou foto da vítima e ironizou o estupro cometido contra jovem de 16 anos na época do crime (Foto: Reprodução)

O caso ganhou proporção pela informação inicial de que a jovem teria sido estuprada por mais de 30 pessoas, graças à menção de um funk no vídeo que viralizou na internet na época.

No caso mais recente, revelado pelo G1 em 5 de maio, três dos quatro suspeitos de estuprar uma menina de 12 anos na comunidade da Chatuba de Mesquita, na Baixada Fluminense, já haviam sido apreendidos até a publicação desta reportagem. A família da vítima, de apenas 12 anos, aceitou entrar no Programa de Proteção da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos.

Um último suspeito é procurado pela polícia após outros dois envolvidos – um deles namorado da vítima – terem se entregado à Justiça. Eles foram internados em uma unidade do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase) em Belford Roxo, também na Baixada.

Desligamento do programa de proteção após ‘quebras de normas’

Em nota, a Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, ligada ao Ministério da Justiça e Cidadania, afirma que “na época foram incluídas seis pessoas da família, que solicitou desligamento por quebras reiteradas de normas, após inúmeras tentativas de repactuações”. Apesar do desligamento, a vítima permanece fora do estado do Rio, de onde saiu na primeira semana de junho de 2016.

A secretaria não informou quais normas foram quebradas, alegando o sigilo garantido ao caso, por causa da idade da vítima. Segundo o Guia de Procedimentos do Programa, entre as condutas conflitantes com a proteção, que podem motivar o desligamento do programa, estão:

  • Agressão física cometida por usuários contra os técnicos;
  • Envolvimento do usuário em eventos incompatíveis com sua segurança pessoal ou que coloque em risco a equipe responsável por sua proteção;
  • Prática de ato infracional e/ou crime;
  • Utilização do local de pouso para atividade outra que não a proteção, sem autorização prévia dos profissionais do programa;
  • Exposição nos meios de comunicação.

O usuário do programa de proteção está ainda automaticamente desligado, de acordo com o guia, se “retornar à área de risco, evadir-se do local de proteção, em situação de medida socioeducativa ou em caso de óbito”.

‘Tenho cautelas’, diz delegada de caso

Delegada na época das investigações, Cristiana Bento relembra detalhes do caso que chocou o mundo (Foto: Henrique Coelho)Delegada na época das investigações, Cristiana Bento relembra detalhes do caso que chocou o mundo (Foto: Henrique Coelho)

Delegada na época das investigações, Cristiana Bento relembra detalhes do caso que chocou o mundo (Foto: Henrique Coelho)

A delegada Cristiana Bento, atualmente lotada na 13ª DP (Copacabana), assumiu as investigações do caso do Morro da Barão após a polêmica que resultou na transferência do inquérito da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI) para a Delegacia de Atendimento à Criança e Adolescente Vítima (DCAV).

As críticas da vítima e de organizações a respeito da investigação da DRCI motivaram a mudança da investigação. Um ano após o caso, Cristiana Bento relata ter sofrido pelo menos oito ameaças de morte, todas protocoladas no Disque-Denúncia. “Tenho cautelas”, disse a delegada, sem dar mais detalhes.

O chefe do tráfico no Morro da Barão, na Praça Seca, Sergio Luiz da Silva, conhecido como Da Russa, foi indiciado pela polícia, assim como um outro traficante, menor de idade, conhecido como Perninha, e Moisés Camilo de Lucena, o Canário, que foi preso em março de 2017. Os dois primeiros estão foragidos desde o ano passado.

As ameaças mostram o problema que a Polícia Civil enfrentou para conseguir informações sobre o caso, devido ao medo da vítima e de testemunhas de implicar traficantes no crime. “Ela pouco lembrava, e não queria falar que Canário, da Russa e Perninha estavam lá. É uma comunidade sob domínio do tráfico, onde impera a lei do silêncio”, avalia a delegada.

Celular foi fator decisivo

Cristiana conta que ela e sua equipe começaram a trabalhar no dia 29 de maio, e já obtiveram mandados de prisão contra Raí de Souza e Lucas Perdomo Duarte, os primeiros identificados como possíveis suspeitos do crime. Raí chegou a depor na Cidade da Polícia, na Zona Norte do Rio, fazendo o sinal de uma facção criminosa com os dedos. A delegada já tinha certeza, pelas imagens, que havia ocorrido um estupro de vulnerável.

Raí de Souza, de 22 anos, suspeito de participar do estupro coletivo de uma adolescente na Zona Oeste no Rio, teve celular como fator decisivo para solucionar crime (Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo)Raí de Souza, de 22 anos, suspeito de participar do estupro coletivo de uma adolescente na Zona Oeste no Rio, teve celular como fator decisivo para solucionar crime (Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo)

Raí de Souza, de 22 anos, suspeito de participar do estupro coletivo de uma adolescente na Zona Oeste no Rio, teve celular como fator decisivo para solucionar crime (Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo)

O objetivo, então, era conseguir identificar a autoria. A delegada e sua equipe não acreditaram no depoimento de Raí, que afirmou ter jogado o celular em um rio na região onde teria ocorrido o estupro. Agentes da DCAV começaram então a procurar imagens de Raí com amigos, a fim de localizar o telefone.

Em uma rede social, encontraram uma foto dele com um amigo, e começaram a vasculhar aspectos que ajudassem a encontrar o endereço da casa onde estavam. “Ele estava com a mesma bermuda de quando foi preso”, disse a delegada.

Os agentes repararam que uma amendoeira, em uma rua de Madureira, também na Zona Norte, estava no fundo da foto. A partir daí, vasculharam as ruas da região até achar um prédio de apartamentos que tivesse uma árvore perto. Finalmente, encontraram o amigo de Raí, e com ele o celular dado como perdido.

“O celular nos fez ter acesso ao vídeo, e foi fundamental para solucionar o caso e identificar a autoria daquele fato bárbaro que o mundo presenciou”, afirmou a delegada.

Um segundo vídeo, encontrado também no celular de Raí, mostra a vítima entorpecida, tentando impedir que os que estavam no quarto com ela inserissem um batom em sua vagina. Em um trecho do vídeo, ela pede “Para, para”, e ouve de um dos envolvidos “Para o quê? Você gosta”.

Depoimentos em Bangu

Depois das prisões de Raí e Lucas, Raphael Duarte Bello, de 41 anos, se entregou na Cidade da Polícia. No Complexo Penitenciário de Gericinó, a delegada ouviu novamente os presos. Posteriormente, Lucas Perdomo foi solto por falta de provas que o envolvessem no estupro. A polícia afirma categoricamente que todos os envolvidos tentaram combinar uma versão única dos acontecimentos.

Em um das conversas com Raí, Cristiana ouviu algo que a chocou, pela visão do jovem de que não havia feito nada errado. “Ele disse: ‘Errada era ela. Ali era lugar de traficante. Ela não tinha que estar ali'”, contou a delegada.

“Isso mostra o desprezo pela vítima e também o que é a cultura do estupro. Ninguém merece ser estuprada”

Com Raphael, ela sentiu que houve arrependimento. “Ele contou que quem introduziu o batom foi Perninha. Segundo ele, foi ele que chamou para participar de tudo”, disse. Antes de ser preso, Raphael chegou a negar participação no crime e afirmou que ajudou a jovem depois do estupro. Uma foto, no entanto, mostra que ele tirou uma selfie próximo da genitália da jovem, com a língua de fora.

Retrospectiva

Pelo crime de estupro de vulnerável e por produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente, Raí de Souza e Raphael Duarte Belo foram condenados a 15 anos de prisão. Já Moisés Camilo de Lucena foi preso em março no Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, por outro crime, mas o mandado pelo crime de estupro foi cumprido.

De acordo com as investigações, no dia 20 de maio de 2016, a adolescente saiu de um baile funk com Raí, o jogador de futebol Lucas Perdomo, de 20 anos, e mais uma garota às 7h da manhã de sábado, 21 de maio. Na festa, eles teriam feito uso de bebidas alcoólicas, maconha e cheirinho da loló (entorpecente feito com clorofórmio e éter). Os quatro foram a uma casa abandonada no Morro do Barão.

Às 10h do mesmo dia, Raí, Lucas e a outra menina decidiram ir embora, deixando para trás a menor, que ainda estava sob o efeito de drogas. Às 11h, a menina teria sido encontrada desacordada pelo traficante Moisés Camilo de Lucena, o Canário, de 28 anos.

O homem pegou a jovem e a levou para outra casa. Ele teria sido o primeiro a estuprá-la. As investigações apontam que a adolescente foi estuprada, no mínimo, duas vezes: no sábado pela manhã e no domingo à noite.

Sites e publicações internacionais repercutem o episódio do estupro coletivo e o amplo debate sobre a cultura de agressões à mulher no país (Foto: Reprodução)Sites e publicações internacionais repercutem o episódio do estupro coletivo e o amplo debate sobre a cultura de agressões à mulher no país (Foto: Reprodução)

Sites e publicações internacionais repercutem o episódio do estupro coletivo e o amplo debate sobre a cultura de agressões à mulher no país (Foto: Reprodução)

Manifestações ocorreram em todo o Brasil após a notícia do estupro. Houve, ainda em 2016, o estupro coletivo de uma mulher em São Gonçalo, na região Metropolitana. A repercussão foi internacional, chegando até mesmo a uma manifestação da Organização das Nações Unidas.

Fonte: G1