Com 100 mil passando fome, Sudão do Sul gasta metade do orçamento em armas


O mais novo país do mundo, o Sudão do Sul, tem atualmente cerca de 100 mil pessoas passando fome, segundo estimativas do governo e da Organização das Nações Unidas (ONU), o que faz com que o país tenha uma das piores situações humanitárias do mundo. Porém, o governo gasta pelo menos metade de seu orçamento com armamento.

Em fevereiro deste ano, o governo afirmou que quase metade da população do país não teria acesso confiável a alimentos a preços acessíveis até julho. Independente desde 2011, o país de 12,5 milhões enfrenta uma guerra civil desde 2013.

O país obtém 97% de sua renda por meio da venda do petróleo. Do final de março ao final de outubro de 2016, a venda desse produto atingiu aproximadamente 243 milhões de dólares, segundo cálculos dos especialistas, citados pela France Presse.

Um relatório das Nações Unidas, feito por um painel de especialistas, mostra que o governo de Salva Kiir gasta pelo menos a metade, “e provavelmente muito mais”, do seu orçamento com armas apesar da grave crise alimentar.

Pessoas se aproximam de clínica improvisada em Thaker, Leer County, no Sudão do Sul, em 18 de março  (Foto: Siegfried Modola/ Divulgação Médicos Sem Fronteira)

Pessoas se aproximam de clínica improvisada em Thaker, Leer County, no Sudão do Sul, em 18 de março (Foto: Siegfried Modola/ Divulgação Médicos Sem Fronteira)

Um documento na ONU, que recebeu apoio dos Estados Unidos, chegou a pedir o embargo na venda de armas para o país, mas foi rejeitado pelo Conselho de segurança em dezembro de 2016. “As armas continuam inundando o Sudão do Sul, asseguram diversas fontes, muitas vezes em coordenação com os países vizinhos”, indicou.

Com uma economia em frangalhos, o Sudão do Sul enfrenta uma inflação anual de 800%. Há um ano, US$ 1 valia cerca de 3 libras sudanesas. Atualmente, a proporção é de 1 para cerca de 120.

Homens, mulheres e crianças aguardam atendimento em clínica improvisada em Thaker, Leer County, no Sudão do Sul, em 20 de março  (Foto: Siegfried Modola/ Divulgação Médicos Sem Fronteiras)

Homens, mulheres e crianças aguardam atendimento em clínica improvisada em Thaker, Leer County, no Sudão do Sul, em 20 de março (Foto: Siegfried Modola/ Divulgação Médicos Sem Fronteiras)

Civis: principais vítimas

Um informe confidencial da ONU, vazado em fevereiro, indica que a guerra alcançou “proporções catastróficas para os civis” e que as milícias podem se tornar incontroláveis e alimentar os combates por vários anos.

O Sudão do Sul passa por um “processo de limpeza étnica em várias regiões por meio do uso da fome, dos estupros coletivos e de incêndios”. Atrocidades como o assassinato de crianças, castrações, estupros e degolas são alguns exemplos do que ocorre na região.

O drama dos habitantes foi retratado pelo o fotógrafo independente Siegfried Modola, anglo-italiano e atua na África como fotógrafo independente, que visitou a região de Leer e Mayendit, no norte do país, com a equipe Médicos Sem Fronteiras.

Ele conta que os civis pagam o preço mais alto. “Os civis estão na linha de frente do conflito. Eles não têm acesso a serviços básicos para a sobrevivência. Comida e ajuda médica são quase inexistentes, exceto as providenciadas por organizações humanitárias, quando estão em segurança para atuar”, afirmou o fotógrafo, segundo a organização Médicos Sem Fronteiras.

O fotógrafo conta que o aeroporto da capital Juba, no sul do país, é um centro de atividades humanitárias: inúmeras organizações humanitárias tentam abastecer a população que precisa desesperadamente dos serviços mais básicos.

 (Foto: Editoria de Arte/G1)

(Foto: Editoria de Arte/G1)

Refugiados

Modola conta que as pessoas relataram ter se deslocado de suas casas várias vezes. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, escreve nesse informe que os civis fogem das cidades e aldeias “em um número recorde” e que o risco de que se cometam atrocidades em massa “é real”.

Segundo a Agência da ONU para os Refugiados (Acnur), mais de 1,5 milhão de pessoas fugiram do país em busca de proteção desde que começou o conflito armado.

O Sudão do Sul se transformou “na maior crise de refugiados da África” e “na terceira do mundo” após as de Síria e Afeganistão, segundo a Acnur, que lembrou que, adicionalmente, 2,1 milhões de pessoas estão deslocadas dentro do país.

O Unicef, por sua vez, calcula que 270 mil crianças sul-sudanesas estão gravemente desnutridas.

Mulheres ajudam a carregar equipamento de organização não-governamental em Thaker, no Sudão do Sul, em 21 de março de 2017  (Foto: Siegfried Modola/ Divulgação Médicos Sem Fronteira)

Mulheres ajudam a carregar equipamento de organização não-governamental em Thaker, no Sudão do Sul, em 21 de março de 2017 (Foto: Siegfried Modola/ Divulgação Médicos Sem Fronteira)

Independência recente

O Sudão do Sul conquistou sua independência em relação ao Sudão em julho de 2011, depois que um referendo realizado em janeiro daquele ano aprovou a separação com 98,83% dos votos a favor. O referendo estava previsto em um acordo de paz de 2005 que encerrou décadas de guerra civil.

As diferenças étnicas e religiosas do que então era apenas um país foram o principal ponto de conflito entre os dois lados. A população do sul (hoje o Sudão do Sul), formada por diversos grupos étnicos de maioria cristã ou animista, se sentia discriminada pelo governo centralizado em Cartum (no Sudão), de maioria muçulmana, e que tentava impor a lei islâmica na região.

Mulher aguarda deitada ajuda médica em clínica improvisada pela ajuda humanitária em Thaker, Leer County, no Sudão do Sul, em 20 de março  (Foto: Siegfried Modola/ Divulgação Médicos Sem Fronteira)

Mulher aguarda deitada ajuda médica em clínica improvisada pela ajuda humanitária em Thaker, Leer County, no Sudão do Sul, em 20 de março (Foto: Siegfried Modola/ Divulgação Médicos Sem Fronteira)

Confronto de facções

Mas a aparente tranquilidade não durou. A guerra interna no Sudão do Sul começou em dezembro de 2013, com combates entre duas facções do exército, dividido pela rivalidade entre o presidente Salva Kiir e seu ex-vice Riek Machar. Diferentes milícias se uniram a cada um dos lados, com confrontos marcados por massacres de caráter étnico.

O confronto teve início quando Kiir destituiu Machar, acusando-o de tramar um golpe de Estado. Os dois políticos pertenciam ao mesmo partido — o Exército de Libertação do Povo Sudanês.

“Algumas horas mais tarde, os militares se dividiram e começamos a escutar tiros em Juba (a capital)”, contou à BBC Mundo o brasileiro Raimundo Rocha dos Santos, um padre brasileiro que trabalha como missionário Naquele país.

A disputa política somou-se à tensão étnica. O grupo dos dinka, ao qual pertence Salva Kiir, e que representa cerca de 15% da população do país, se opôs ao grupo dos nuer, do qual faz parte Machar e que equivale a cerca de 10% dos habitantes.

Vista aérea de Leer County, no Sudão do Sul, em 23 de março de 2017  (Foto: Siegfried Modola/ Divulgação Médicos Sem Fronteira)

Vista aérea de Leer County, no Sudão do Sul, em 23 de março de 2017 (Foto: Siegfried Modola/ Divulgação Médicos Sem Fronteira)

Fonte: G1