Editorial

“Quando eu morrer, não quero choro nem vela…”


Autor: Mírian Gomes

 

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Foto: Reprodução

“Quando eu morrer,

não quero choro nem vela…”.

Pois bem ‘seu’ Noel Rosa, eu também não.

Nada de dia de Finados, parafina pra todo lado, o povo em tumulto, a dor e o luto, diante da foto do meu túmulo. Na lápide, de tom cinza e gelado, meu nome incrustado, e uma, também morta, flor do lado.

Não é nada pessoal contra quem inventou esse ‘dia funeral’. Mas, poxa, por muito tempo, foi tudo tão visceral, vivo, vivido, vivído, intenso, legal! E vai terminar assim? Repleto de dores, e, por fim, uma coroa de flores?

 

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Pois aqui deixo registrado aos meus familiares, amigos e pares: não chorem minha morte, seja ela de qual sorte, em que circunstância for. Em vida, o que mais desejo é ver cada um de vocês feliz, desejo ver vocês bem, vivendo a vida e curtindo-a. Acham mesmo que, após a minha ida, eu iria querer ver vocês sofrendo, chorando e, em luto quase perpétuo, velando e velando, como se não mais tivessem vida?

Quando eu morrer, doem meus órgãos. De nada irá me servir na hora da recomposição (decomposição?) à natureza de onde vim. Doem meus órgãos, por favor. Tenham a certeza, sentirão enternecer, da perda, a dor. E estarão multiplicando este gesto de amor.

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Quando eu morrer, não façam velório. Não coem o café, não adocem o chazinho. Não quero ninguém de burburinho, fuxicando no meu pé ‘douvido’, discutindo se fui boa ou se fui ruim, ou sussurrando a frase mais recorrente em quase todo velório existente: “agora que morreu virou santo (a) é?”. Ou, como compôs Noel Rosa:

“Meus inimigos,

Que hoje falam mal de mim,

Vão dizer que nunca viram,

Uma pessoa tão boa assim…”

Basta né? Disso não vou precisar, pois já estarei indo de encontro ao Único que pode me julgar.

Não quero aquela marcha funesta, um por um passando, conferindo minha testa. Cada um dando seu ‘atesta’ de que de fato fui pra terra dos pés juntos. É horrendo, mas, a última imagem que ficará, para muitos, é a cara de um defunto.

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Não gastem com caixão. Com inflação ou sem inflação, é um roubo descarado o valor de um esquife. É muita judiação. Perde um ente querido, faz café, faz chazinho, compra biscoito água e sal, passa mal, paga empresa de funeral e ainda passa cartão, pra pagar por um caixão, que vai apodrecer debaixo do chão?

Não me enterrem no cemitério. Parece até um despautério, mas já pensaram nas toneladas de areia, brita, cimento e ferro? De mármore e granito, pra tudo ficar bonito, se eu não vou usufruir de nada disso? Não poluam ainda mais. A natureza agradece.

E, por favor, não se lembrem de mim no Dia de Finados. Não acendam vela alguma, haja parafina, fósforo, fumaça, plástico (de fita, de flor, de coroa). O comércio, é o que mais ganha, não dará por essa falta, pois só o que há é ‘defuntada’ sendo velada com uma vela acesa, pra uma pessoa já ‘apagada’.

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Pois bem, por bem, realizem os últimos desejos da ‘morta’. Me levem em uma rede, não me confinem num caixão. Me enterrem por aí. No cemitério não. Deixem a natureza fazer a parte dela. Dela faço parte. Nós, o tempo inteiro, por toda parte, até na hora da morte, atrapalhamos o trabalho da mãe natureza, essa que morre todo dia, e ninguém vela.

"El día de los muertos" é comemorado com festa no México. Foto: Reprodução.
“El día de los muertos” é comemorado com festa no México. Foto: Reprodução.

O mexicano é que faz um carnaval, é festa no feriado, é dia de relembrar, com festa e alegria, seus entes desencarnados. Então façam isso por mim, após a minha partida sejam felizes, não se ‘redomem’ na penumbra do luto, pois é só lembrar que seu eu estivesse viva não iria querer ver ninguém triste ou sofrendo. Em vida o que mais quis foi ver vocês felizes. E após minha partida, não tenham dúvidas, permanece o mesmo sentimento.

“Como eu te quero tanto bem.

 

Aonde for, não quero dor

Eu tomo conta de você,

mas te quero livre também,

como o tempo vai e o vento vem…” 

Eu gosto tanto de ler, de escrever. De sorrir e cantar! De dançar!! Por que justamente na tristeza hão de querer ficar?

Não sei como vai ser, mas há de haver um jeito mais natural pra encarar esse momento tão normal, que um dia há de acontecer. Afinal, nem o humano mais genial, descobriu como evitar esse momento tão ‘mal’. Nossa única certeza, nessa vida de incertezas, é a morte no final.

“Não quero flores,

Nem coroa com espinho

Só quero choro de flauta,

Com violão e cavaquinho…”